Numa altura em que a indústria tecnológica atravessa a sua transformação mais radical, a escrita de código puro começou a transitar de uma arte manual para uma commodity automatizada. É neste cenário de disrupção acelerada que fomos conversar com Luís Ribeiro, Chief Technology Officer (CTO) da KLx, o hub tecnológico responsável por desenvolver e operar as soluções de vanguarda que movem o gigante financeiro europeu Crédit Agricole.

Nesta entrevista exclusiva à Wintech, Luís Ribeiro partilha um olhar pragmático e desmistificador sobre conceitos que estão na ordem do dia, como o Vibecoding e o AutoOps. O grande desafio atual das lideranças tecnológicas já não passa por acelerar a velocidade da programação, mas sim por encontrar o equilíbrio perfeito entre a agilidade quase "mágica" da Inteligência Artificial e o rigor absoluto e inegociável exigido pelo setor bancário.

"O papel do developer evolui no sentido de um tech lead, em que a 'equipa' é composta por um conjunto de agentes de IA, exigindo uma liderança técnica orientada para a supervisão, validação contínua e tomada de decisão."

Ao longo da conversa, o CTO da KLx explica como a empresa está a redesenhar as suas carreiras e fluxos de engenharia, defendendo que a próxima geração de líderes técnicos terá de se destacar pelo pensamento sistémico e pela capacidade de orquestrar soluções, em vez de se limitar à especialização numa linguagem específica. Uma visão essencial para profissionais, gestores e entusiastas que procuram compreender onde reside, afinal, o verdadeiro valor humano na era do desenvolvimento automatizado.

Wintech: Luís, para contextualizar, como define hoje a missão da KLx dentro do ecossistema do Crédit Agricole e de que forma a automação inteligente alterou as vossas prioridades no último ano?
Luis Ribeiro: A missão da KLx continua a ser muito clara: desenvolver e operar soluções tecnológicas que aumentem a eficiência e a capacidade de inovação do grupo Crédit Agricole. No último ano, a automação inteligente passou a ter um papel ainda mais central nesse objetivo.
Se antes o foco estava sobretudo em melhorar os processos de desenvolvimento, hoje procuramos automatizar partes significativas do ciclo de vida do software, desde a documentação e os testes até à monitorização e manutenção, para libertar os developers para tarefas de maior valor, como o desenho de soluções e a resolução de problemas complexos.

Wintech:  Fala-se muito de que o código está a tornar-se uma commodity. Se o código é barato e abundante, onde reside hoje o verdadeiro valor de um senior engineer?
Luis Ribeiro: Costumo dizer aos colaboradores da KLx que, cada vez mais, é exigido a um developer que dê um "passo acima" na sua carreira. O foco deixa de estar apenas na capacidade de produzir código com qualidade e passa também por assegurar a validação, a integridade, a segurança e a robustez do sistema como um todo. Dito de outra forma, o papel evolui no sentido de um tech lead ou team lead, em que a "equipa" é composta por um conjunto de agentes de IA, exigindo uma liderança técnica, orientada para supervisão, validação contínua e tomada de decisão.
Por outro lado, a velocidade do mercado continua a acelerar. Os clientes exigem simultaneamente mais qualidade, maior capacidade e entregas em prazos cada vez mais curtos. Neste contexto, a procura por engenheiros de software experientes - capazes de conceber, construir e operar sistemas complexos, bem como de liderar equipas que os materializem - tenderá a crescer de forma significativa.
O mercado valoriza, cada vez mais, profissionais que compreendam a complexidade inerente ao desenvolvimento de sistemas de software e que acompanhem de perto a evolução da Inteligência Artificial, tirando partido efetivo do seu potencial. Na verdade, isto não é nada de novo na vida de um engenheiro de software: sempre nos foi exigida a capacidade de conceber e compreender sistemas, bem como de dominar as ferramentas mais recentes.
A diferença reside no alcance e na velocidade da inovação atual. No passado, cada nova vaga tecnológica deixava frequentemente algumas áreas relativamente "imunes", criando nichos onde o seu impacto era limitado ou onde esse impacto poderia levar anos até ser sentido. Hoje, porém, na indústria do software, é difícil identificar, no imediato, um domínio que não esteja, de alguma forma, a ser transformado pela IA.

Wintech:  O conceito de Vibecoding sugere que o developer pode "sentir" e direcionar o sistema sem tocar na sintaxe. Como é que se mantém o rigor bancário e a auditoria necessária quando a barreira entre a intenção e a execução técnica se torna tão fluida?
Luis Ribeiro: O Vibecoding pode, à primeira vista, parecer quase "mágico": a ideia de um developer escrever uma prompt em linguagem natural e receber código feito, sem mergulhar diretamente nos detalhes da programação, é sem dúvida apelativa. Mas é importante desmistificar: sem métodos e processos de engenharia de software rigorosos, este paradigma é também extremamente volátil. Tanto pode produzir resultados espetaculares, como pode falhar de forma catastrófica. Num contexto bancário, essa volatilidade não é aceitável.
A abordagem correta, especialmente numa organização tecnológica inserida num grupo financeiro, é enquadrar o uso de agentes de IA dentro de práticas de engenharia de software altamente disciplinadas, rigorosas e robustas.
Desde logo, é essencial recorrer a processos automatizados de CI/CD (Continuous Integration / Continuous Delivery), que são processos que integram, testam e distribuem código de forma contínua e controlada, garantindo que qualquer alteração, seja ela feita por humanos ou por agentes de IA, é validada antes de chegar a produção. Complementarmente, o TDD (Test-Driven Development), onde os testes são definidos antes do código, assegura que cada funcionalidade responde exatamente aos requisitos esperados e que uma nova alteração não danifica as funcionalidades que anteriormente funcionavam corretamente.
Mas não devemos ficar por aqui. Todo o código gerado por agentes de IA deve passar por validação humana rigorosa (através de "pull requests"), assegurando que existe sempre supervisão e responsabilização. Adicionalmente, devem ser impostas regras estritas de arquitetura e desenho de software, garantindo modularidade, separação de responsabilidades e integridade dos sistemas. Os agentes de IA são forçados a implementar e manter estas regras.
Acresce ainda um conjunto de práticas específicas para este novo paradigma: definição clara de guardrails e políticas de geração de código, auditoria contínua das decisões tomadas pelos agentes de IA e utilização de ambientes isolados (sandboxes) para validar comportamentos antes de qualquer integração em sistemas críticos.
No fundo, importa reconhecer que os sistemas baseados em IA são, por natureza, não-determinísticos. Mas ao envolver esse potencial dentro de um processo de desenvolvimento de software estruturado e rigoroso, é possível transformar essa aparente incerteza em resultados previsíveis, de elevada qualidade e plenamente compatíveis com as exigências do setor bancário. E isso permite algo muito relevante: desenvolver, com segurança e rigor, em horas aquilo que antes poderia demorar semanas a equipas exclusivamente humanas.

Wintech: Esta mudança para a linguagem natural como interface de programação não corre o risco de criar uma geração de profissionais que entende o "quê", mas não o "como" das máquinas?
Luis Ribeiro:Esse risco existe, sem dúvida. No entanto, acho que faz sentido olharmos para trás e percebermos que este tipo de abstrações já existiu no passado. Quando apareceram o SQL (e os SGBDs - Sistemas Gestores de Bases de Dados), as linguagens de alto nível (este "evento", em muitos casos, trouxe ganhos de produtividade superiores aos que a IA promete atualmente), o Java e outros, a questão foi a mesma. Os melhores profissionais foram, e continuam a ser, aqueles que dominam as novas ferramentas (já que aumentam imensamente a qualidade e velocidade de desenvolvimento) e que percebem as consequências de cada uma das ações que são realizadas pelas mesmas.
É precisamente por isso que continuo a valorizar muito a formação técnica sólida. Daí estarmos a investir nos nossos colaboradores, proporcionando-lhes formações técnicas em desenvolvimento de software em diversas linguagens, DevOps, Data e IA. Entender como os sistemas funcionam continua a ser essencial para um engenheiro de software de sucesso.

Wintech: Com o AutoOps a assumir a monitorização e a correção de falhas em tempo real, o developer passa a ser um "vigilante do sistema". Quais são as competências de "pensamento sistémico" que se tornam críticas quando já não precisamos de apagar fogos manuais na infraestrutura?
Luis Ribeiro:Como indiquei anteriormente, um engenheiro de software humano, ao ter à sua disposição uma equipa de agentes de IA, passa a ser um tech lead ou team lead. Qualquer bom tech/team lead (independentemente de ser um líder de agentes de IA ou humanos) tem que atuar como guardião do sistema: possuir pensamento sistémico, dominar em profundidade os seus detalhes e manter a capacidade de intervir diretamente em qualquer componente quando necessário.
Quem já tem experiência com a utilização de agentes de IA sabe que, recorrentemente, o agente fica como que "bloqueado" num "caminho" que ele próprio criou, mas que não o leva a lado nenhum. Independentemente das prompts que o humano fornecer, ele vai continuar bloqueado sem encontrar a solução. É esse o momento em que o humano deve intervir e corrigir o problema ele próprio ou fazer o agente dar um passo (ou mais) atrás e colocá-lo de novo no bom caminho.

Wintech:  Muitos developers sentem que a sua arte está a ser diluída pela IA. Como é que se lidera uma equipa nesta mudança de identidade, de "artesãos do código" para "curadores de soluções"?
Luis Ribeiro: É uma mudança de mentalidade. Durante muito tempo, valorizámos sobretudo a capacidade de escrever código rapidamente; hoje valorizamos cada vez mais a capacidade de desenhar soluções e resolver problemas complexos.
Na prática, o developer não perde relevância; pelo contrário, passa a desempenhar um papel mais estratégico, como alguém que orquestra ferramentas, valida soluções e garante que a tecnologia responda às necessidades reais do negócio. Como disse anteriormente, passa a ser um tech/team lead. Ainda assim, acredito que aqueles que juntam o melhor das duas funções serão os que se destacarão profissionalmente.

Wintech: Num mundo de AI coding, saber dizer "não" a uma funcionalidade gerada automaticamente pode ser mais importante do que saber implementá-la. Como é que treinamos os nossos engenheiros para serem melhores decisores de negócio?
Luis Ribeiro: Existem essencialmente duas formas de estimular esse crescimento profissional.
A primeira passa por expor os engenheiros a projetos interessantes, desafiantes e diversificados, integrados em equipas que promovam aprendizagem e autonomia. É nesse contexto que um engenheiro consegue compreender a realidade do negócio e começar, de forma gradual e prática, a participar na tomada de decisões com impacto real.
A segunda consiste em fomentar a partilha contínua de conhecimento e experiências entre engenheiros, nomeadamente através de comunidades de prática. Estas iniciativas permitem disseminar boas práticas, acelerar a aprendizagem coletiva e criar uma cultura técnica mais forte e colaborativa.
Na KLx, procuramos concretizar estas duas dimensões. Por um lado, temos uma grande diversidade de projetos, trabalhando com 14 unidades de negócio do grupo Crédit Agricole. Isto permite aos nossos colaboradores mudarem de projeto com relativa facilidade - dentro de determinados limites - não apenas na mesma unidade de negócio, mas também entre diferentes áreas do grupo, enriquecendo significativamente a sua experiência profissional.
Por outro lado, criámos internamente uma comunidade aberta a todos os colaboradores da KLx, onde cada pessoa é incentivada a partilhar conhecimento, experiências e competências. Essa partilha pode passar por ferramentas tecnológicas, metodologias de trabalho ou até conhecimento funcional da área financeira que possa ser útil para outros colegas.
Tenho um enorme orgulho em ver o crescimento desta comunidade. O seu sucesso é visível não apenas pela adesão crescente dos colaboradores da KLx, mas também pelo interesse demonstrado pelos nossos clientes, que já começaram a participar ativamente nos nossos eventos de partilha de conhecimento.

Wintech:  Na sua visão, por que razão saber "pensar em sistemas" é hoje mais valioso do que ser um especialista em Java, Python ou qualquer outra linguagem específica?
Luis Ribeiro: Acredito que esta mudança tem a ver com a própria evolução da engenharia de software. As linguagens de programação continuam a ser importantes, mas são ferramentas que evoluem rapidamente e que podem ser aprendidas ou substituídas ao longo da carreira, com os tão importantes processos de reskilling e upskilling.
O que realmente diferencia um engenheiro hoje é a capacidade de compreender como diferentes componentes tecnológicos se articulam para resolver um problema real. Pensar em sistemas significa perceber como aplicações, dados, infraestruturas e processos interagem, como escalam e como se comportam em cenários de falha.
Por isso, cada vez mais valorizamos engenheiros que conseguem ligar a dimensão técnica à arquitetura global do sistema e ao impacto no negócio, em vez de se focarem exclusivamente numa linguagem ou framework específica.

Wintech: Se a IA faz o trabalho que tradicionalmente era entregue aos juniors, como é que garantimos que a próxima geração de líderes técnicos terá o conhecimento de base necessário para auditar a própria IA no futuro?
Luis Ribeiro: Eu diria que o desafio não é eliminar o percurso de aprendizagem, mas sim transformá-lo. Historicamente, muitos developers começavam a carreira com tarefas bastante repetitivas, que hoje podem ser parcialmente automatizadas.
A vantagem das ferramentas de IA é que permitem expor os profissionais mais cedo a problemas mais interessantes e complexos. Além disso, também permitem funcionar como tutores bastante versáteis e adaptáveis às necessidades específicas (desde que esta atividade seja devidamente originada e cruzada com fontes credíveis).
Ao mesmo tempo, continua a ser essencial garantir que os fundamentos técnicos são bem compreendidos. Na KLx damos muita importância a princípios como arquitetura de software, qualidade de código, segurança, gestão de dados e práticas de engenharia sólidas, porque são essas bases que permitem avaliar criticamente aquilo que uma ferramenta de IA produz.
No fundo, o papel do engenheiro passa cada vez mais por saber interpretar, validar e melhorar soluções geradas com apoio de IA. Para isso, a curiosidade técnica e a compreensão profunda dos sistemas continuam a ser indispensáveis.

Wintech: Qual é o conselho que dá a um jovem engenheiro que quer entrar hoje na KLx: deve focar-se na especialização profunda ou na versatilidade estratégica?
Luis Ribeiro: O ideal é encontrar um equilíbrio entre os dois. Ter uma base técnica sólida continua a ser essencial: compreender bem algoritmos, estruturas de dados, arquitetura de software e bases de engenharia fortes é algo que é importantíssimo para um developer ao longo de toda a sua carreira.
Ao mesmo tempo, o contexto tecnológico atual valoriza cada vez mais profissionais capazes de adaptar-se rapidamente e de trabalhar em ambientes multidisciplinares. A tecnologia evolui rapidamente, e muitas vezes os problemas que enfrentamos exigem combinar diferentes ferramentas, plataformas e abordagens.
Por isso, diria que um jovem engenheiro deve começar por construir uma base técnica forte, mas também desenvolver competências como pensamento crítico, curiosidade, capacidade de colaboração e de comunicação. São essas características que permitem acompanhar a evolução tecnológica e contribuir para soluções que tenham impacto real nas organizações e nos clientes.

Wintech:  Daqui a cinco anos, quando olharmos para trás, qual acredita que terá sido a mudança mais permanente e positiva que esta vaga de IA trouxe à cultura organizacional da tecnologia em Portugal?
Luis Ribeiro: A resposta mais óbvia e também mais honesta à pergunta é: ninguém sabe verdadeiramente o que vai acontecer daqui a cinco anos. Estamos perante um ritmo de transformação sem precedentes na história da humanidade. Para se perceber a velocidade desta mudança, basta dizer que aquilo que hoje consideramos verdade deixa de o ser dentro de um mês.
Ainda assim, fazendo esse exercício de futurologia, acredito que esta vaga de Inteligência Artificial vai permitir às empresas com práticas sólidas de desenvolvimento de software, acelerar de forma extraordinária o seu crescimento. Não basta ter boas ideias: sem processos estruturados, disciplina de engenharia e mecanismos de controlo robustos, os riscos podem tornar-se extremos. Posso facilmente imaginar um cenário em que uma empresa com produtos brilhantes vê a sua operação comprometida porque os seus agentes de IA apagaram, inadvertidamente, todo o código do repositório sem possibilidade de recuperação. É deste nível de impacto que estamos a falar.
Historicamente, Portugal tem demonstrado níveis muito elevados de qualidade de formação de engenharia e de conhecimento tecnológico. Isso coloca-nos numa posição particularmente favorável para aproveitar esta oportunidade e criar empresas altamente produtivas, escaláveis e com ambição global. Hoje, já não é necessário um investimento massivo nem equipas gigantescas para construir produtos com impacto internacional. Acredito genuinamente que, neste momento, podem estar numa universidade portuguesa os ou as criadoras da próxima Microsoft, Google ou Facebook.

A visão partilhada por Luís Ribeiro deixa claro que a era da Inteligência Artificial no desenvolvimento de software não veio substituir o talento humano, mas sim elevá-lo para um patamar muito mais estratégico e consultivo. Num mercado onde o código se torna cada vez mais acessível, o verdadeiro diferencial competitivo de um engenheiro reside na sua capacidade de desenhar sistemas resilientes, manter uma disciplina rígida de engenharia e liderar com pensamento crítico - qualidades que o CTO da KLx colocou no centro da estratégia de inovação do grupo Crédit Agricole.

Portugal encontra-se numa posição privilegiada para liderar esta nova vaga tecnológica. Ao combinar a reconhecida qualidade da formação técnica dos engenheiros nacionais com o poder da automação inteligente, o ecossistema de TI no nosso país tem todas as ferramentas para deixar de ser um mero executor de excelência e passar a assumir o papel de criador de soluções com ambição e impacto global.

A equipa da Wintech agradece profundamente a Luís Ribeiro pela sua total disponibilidade e pela excelente oportunidade de partilhar estes insights tão ricos, pragmáticos e esclarecedores com os nossos leitores. Um agradecimento que estendemos também à equipa da KLx, por nos permitir abrir as portas a esta reflexão profunda sobre o futuro da tecnologia, da liderança e da cultura organizacional no nosso país.

 

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