As empresas encontram-se num ponto de viragem crítico na adoção de Inteligência Artificial (IA), pressionadas a abandonar a fase de mera experimentação para integrarem de forma profunda esta tecnologia no coração das suas operações. As conclusões constam da edição de 2026 do estudo The State of AI in the Enterprise: The Untapped Edge, conduzido pela Deloitte, que revela um desfasamento entre o ritmo de adoção de novas tecnologias e a verdadeira transformação estrutural dos negócios. Atualmente, a grande maioria das organizações limita-se a utilizar a IA para melhorar a eficiência e automatizar tarefas básicas, sendo raras as que estão a aproveitar este momento para redesenhar modelos de negócio e funções laborais.

O estudo sublinha que a superação da chamada "fadiga de pilotos" é o grande obstáculo atual do mercado global. Apenas 25% das empresas inquiridas conseguiram transitar quarenta por cento ou mais dos seus projetos-piloto de Inteligência Artificial para a fase de produção e implementação real, embora a maioria acredite que atingirá esse patamar muito em breve. Hervé Silva, Partner de AI & Data da Deloitte, alerta que este é o momento decisivo para uma verdadeira "integração de fundo" e que as lideranças empresariais devem apostar numa implementação em larga escala com visão a longo prazo, sem nunca descurar os indispensáveis pilares da regulação e governação responsável.

Uma das tendências mais marcantes destacadas no documento é a ascensão exponencial da Agentic AI (Agentes Autónomos de IA). Atualmente, quase 75% das organizações inquiridas planeiam implementar este tipo de inteligência artificial autónoma nos próximos dois anos, um contraste gritante face aos atuais 23% que declaram uma utilização moderada da mesma. O mercado português acompanha este forte interesse internacional, com 47% das empresas nacionais a preverem um impacto profundo dos agentes autónomos num horizonte de três anos. No entanto, este crescimento rápido esbarra na falta de regulamentação interna, já que apenas 21% das empresas a nível global garantem possuir modelos de governação suficientemente maduros.

Para além da vertente analítica, o estudo aponta para o crescimento da relevância estratégica da IA Física, especialmente aplicada a sistemas autónomos, automação industrial e robótica avançada. Esta nova vaga tecnológica deverá alcançar taxas de adoção próximas dos 80% nos próximos dois anos, com especial foco nos setores da logística e manufatura. Em paralelo, nota-se uma crescente preocupação com a soberania digital, com 77% das empresas mundiais a terem o país de origem dos fornecedores como fator decisivo na escolha das suas soluções. Em Portugal, a tendência confirma-se, sendo que apenas 27% das organizações consideram a proveniência da tecnologia um fator irrelevante.

Apesar de todas as promessas tecnológicas, o capital humano mantém-se como o maior desafio prático. A falta de competências dos colaboradores continua a ser o principal entrave à adoção da IA. O estudo alerta que, apesar de 82% das organizações esperarem automatizar a totalidade de certas funções nos próximos três anos, 84% das empresas inquiridas ainda não iniciou o processo obrigatório de redesenho dos seus cargos laborais ou dos seus modelos de trabalho diários, preferindo investir primeiramente na formação básica e imediata das suas atuais equipas.

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